quarta-feira, 19 de março de 2008

MEMORIAL DO PROFESSOR RUI ARARIPE


Memorial de vida profissional
No dia reservado para redigir o presente Memorial, para atender ao que prescreve o item “b” do Edital Nº 003/2008 do GAB-Reitoria que trata das eleições de Reitor e Vice-Reitor da UECE, eu acordei com saudade das vidas por mim vividas. A do berço familiar; a do quarteirão de minha rua e seu entorno; saudade dos colégios onde estudei e daqueles onde lecionei; da UFC, onde fui aluno de quatro cursos de graduação, três concluídos, aluno de pós-graduação, Membro do Departamento de Matemática, Membro da Comissão de Transferência, Membro da Comissão de Reforma do Regimento Geral da instituição, Membro da equipe que elaborou o Plano Administrativo da instituição em 1975, Membro do Conselho Universitário, todos na qualidade de representante do Corpo Discente e professor do seu Departamento de Matemática; saudade, também, da Unifor, onde lecionei por 13 anos e liderei o único Movimento Docente vitorioso já deflagrado nessa instituição; e, principalmente, da época de ouro da Uece, década de 80, que hoje poucos dos atuais professores conhecem, mas que foi um marco da trajetória da instituição e da minha vida profissional, tanto que a professora Mara Menezes com o seu artigo “Vou embora pro passado”, Diário do Nordeste de 08/11/2004, enfatiza: “Vou embora pro passado, porque lá eu era feliz, o professor universitário era valorizado e recebia o justo pelo seu trabalho. Vou embora pro passado, porque lá havia a APUC, Associação dos Professores da Universidade Estadual do Ceará, dirigida por Rui Araripe e depois pelo saudoso Hamilton Mota, ambos qualificados líderes classistas, sérios e competentes.Lá, em época de eleição tudo era feito às claras, as chapas se inscreviam sem sofre penalidades ou qualquer espécie de constrangimento moral ou jurídico.Vou embora pro passado, porque lá a APUC era respeitada, defendia os direitos dos professores, era recebida pelas autoridades e com elas discutia os pleitos da universidade. Essa postura permeava a UECE, influenciou por diversas vezes manifestações de servidores e discentes. Estes segmentos contavam com o respaldo de uma associação de docentes que representava e legitimava os interesses da comunidade ueceana como um todo. Vou embora pro passado, porque lá eu sentia orgulho de ser professora da Universidade Estadual do Ceará, andava de cabeça erguida, pois nossa categoria vivia com um padrão salarial condizente com sua relevância no seio da sociedade. Lá, no passado, não havia emboscadas com o objetivo de impedir as manifestações dos colegas. Vou embora pro passado, porque tenho saudades do tempo em que política universitária era coisa séria e digna.Enfim, vou embora pro passado, porque lá havia um borbulhar de emoções positivas nas entranhas da UECE que circulavam por suas artérias, veias e capilares, tornando-a ativa e participante. A instituição sentia-se segura, e seus integrantes protegidos em seus ideais e aspirações, pela confiança e legitimidade que conferiam à sua entidade representativa.” Antes, muito antes, antevendo os louros desse período em artigo publicado no “O POVO”, de 01 de dezembro de 1981, intitulado “Oração que não foi proferida”, o saudoso professor Anisio Maia de Souza proclamava: “neste certame estaremos juntos, todos os que fazemos nossa UECE, irmanados, de mãos dadas, ao lado deste jovem, audaz, inteligente, dinâmico líder nato para as alcantiladas epopéias-Presidente Rui Alencar Araripe.” Mais adiante ele acrescentava: “o bravo guerreiro Alencar Araripe já se acostumou às procelas e saberá conduzir-se com serenidade e denodo, pois foi sempre herói perseguido por óbices e vitorias, na escalada ciclópica de sua ascensão universitária.” Realmente a APUC, sob o meu comando, posicionou-se como permanente e eficiente defensora da UECE e, por natural decorrência, dos legítimos interesses dos segmentos que a compõem: alunos , funcionários e professores. O movimento liderado pela APUC obteve vitórias retumbantes, que estão na memória dos que viveram aqueles períodos marcados pela incerteza e pela insegurança, e nos quais o autoritarismo tentava sufocar acalentadas reivindicações, que iam da escala salarial à própria estrutura universitária, minada pela falta de autonomia. Leis e Decretos deram nova feição à UECE, em caráter pioneiro no Estado. A liberação de verbas para a construção do campus do itaperi jamais foi conseguida no montante então conquistado. A situação geral seria melhor ainda se as etapas complementares não tivessem sido lamentavelmente descuradas nos últimos anos.
Posto isto, fica caracterizado que minha vida profissional é um reflexo das atribuições acadêmicas, que assumi com gosto e dedicação, e do amplo envolvimento político em defesa da universidade, seja como docente ou discente. Meu olhar é, por isso mesmo, multidisciplinar em decorrência das múltiplas oportunidades que a vida me deu.
O berço familiar me recebeu no dia 24 de junho de 1951. Fui educado num lar bem estruturado. Minha mãe, a professora Noemi Benevides Alencar Araripe, e meu pai o jornalista, professor universitário e escritor José Caminha Alencar Araripe, proporcionaram-me uma vida feliz. Com crescimento natural, senti pulsar, ainda cedo, uma forte inclinação para participar da vida comunitária, ora na liderança estudantil, ora nas associações atléticas tanto do ensino secundário como no superior. A queda para a matemática apareceu cedo, tanto que uma afirmação corriqueira em família era a de que eu iria cursar engenharia. Como eu aprontava muito, meu pai, para aliviar a barra em casa, levava-me para a UFC. Quando lá ingressei, já sabia o que queria. Minha meta era ser monitor e representante estudantil, ideais que se concretizaram rapidamente.
O quarteirão de minha rua e seu entorno muito me ensinaram. Ali próximo estava a favela do Campo do América, à frente as residências dos comerciantes opulentos, na lateral residiam políticos de envergadura, no meio a classe média, ancorada na passarela da educação, que vislumbrava para os seus uma cobiçada vaga na UFC. O ciclo virtuoso da educação é palpável. Os do Campo do América que estudaram e se profissionalizaram, embora ainda lá vivendo, mudaram a estrutura e a fachada de suas casas, melhorando substancialmente a qualidade de vida de seus familiares. Os do meio, que respiravam universidade, cresceram, consolidaram posição social e ainda de quebra vêem os filhos seguirem a mesma trilha. A pulverização das heranças deixou muitos amargurados e o poder que é efêmero, soçobrou. Por isso tenho como princípio não perder a alma por esse.
Os colégios, inclusive os públicos, nos quais estudei com muita honra, mais do que saudade afetiva, geram em mim, hoje, uma nostalgia em decorrência do que estou vendo como professor de Prática de Ensino de Matemática nas Escolas de Ensino Fundamental e Médio onde coloco estagiários. Uma escola, com as exceções de praxe, que diferentemente da minha, deixa antever uma leva significativa de jovens postos à margem do desenvolvimento social. A minha escola preparou-me efetivamente para a vida e para enfrentar o batente na universidade. Nessa perspectiva lecionei, ainda como acadêmico, nos colégios Capistrano de Abreu, Djacir Menezes, Jacinto Botelho e Centro de Tecnologia do Ceará, entre os anos de 1974 e 1976. No biênio 1974/75, coordenei a área de ciências do Djacir Menezes. As escolas públicas de hoje que se afastam dessa tristeza acima relatada têm no bom desempenho de seu grupo gestor o alicerce que faz a diferença para melhor e constituem as exceções nesse pesadelo real.
Na Universidade Federal do Ceará - UFC, ingressei, no início de 1972, no Curso de Engenharia de Pesca, assim meio sem convicção se esse seria o curso que queria, e no meio do ano ingressei no Curso de Matemática da UFC, já que, naquela época não havia a proibição de um aluno matricular-se em mais de um curso da instituição. No início de 1973 fui aprovado no concurso para Monitor da disciplina Cálculo Diferencial e Integral-I, do Departamento de Matemática da UFC, onde exerci a monitoria até o final do ano de 1975. Esse fato vinculou-me ainda mais ao Curso de Matemática. Em 1974, depois de 2 anos estudando nos cursos de Matemática e de Engenharia de Pesca, resolvi abandonar o de Engenharia e dedicar-me somente ao Curso de Matemática, visando, no futuro, galgar a posição de professor universitário nessa área. O Curso de Engenharia de Pesca proporcionou-me conhecimentos de como tratar as Ciências Experimentais e aplicar métodos numéricos às mesmas. Em dezembro de 1975, concluo a Licenciatura Plena em Matemática da UFC e, em dezembro de 1976, o de Bacharelado em Matemática da UFC. Em fevereiro de 1977, concluo o Curso de Especialização em Matemática do Centro de Ciências da UFC, iniciado em janeiro de 1976, para o qual o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico-CNPq concedeu-me bolsa no período de abril/1976 a março/1977. No primeiro semestre de 1977, ingressei no Mestrado em Matemática do Centro de Ciências e Tecnologia da UFC e cursei as seguintes disciplinas: Geometria Diferencial, Álgebra Linear e Multilinear, Topologia Geral e Análise no RN. Embora não concluído, pois em 1978 deixei também o magistério na UFC para ingressar no magistério da UECE, esta experiência no Mestrado ampliou e aprofundou a boa formação adquirida na Especialização e no bom Curso de Matemática, dando-me lastro para exercer com desenvoltura as minhas atividades docentes iniciadas em1977 na Universidade de Fortaleza - UNIFOR e na UFC. Na década de 90, entrei como graduado e conclui mais um curso de graduação da UFC, o de Bacharelado em Estatística. O móvel principal era obrigar-me a usar o computador com mais desenvoltura no trato dos métodos quantitativos. Ser professor e aluno ao mesmo tempo, foi uma experiência enriquecedora. Pude sentir porque os alunos se inquietam ou se desinteressam, e reavaliei minha prática, passei a pensar criticamente sobre meu fazer tentando corrigir algumas falhas, e evitando fazer coisas que como aluno desaprovava em meus professores. Este fato tornou-me mais maduro em relação a construção do saber no processo de ensino-aprendizagem. A outra face do aprendizado, que a UFC me proporcionou, foi os dos procedimentos acadêmicos que aprendi com pessoas notáveis e históricas da UFC ao participar, na qualidade de representante discente, do Departamento de Matemática, da Comissão de Transferência, da Comissão de Reforma do Regimento Geral da instituição, da equipe que elaborou o Plano Administrativo da instituição em 1975 e do Conselho Universitário.
A UNIFOR, por ser uma IES de gerenciamento privado, não deixa de ser um grande laboratório a sugerir idéias e procedimentos a serem utilizados ou adaptados ao gerenciamento das universidades públicas, no campo acadêmico, administrativo, de segurança, na infra-estrutura, nas atividades culturais e esportivas e no envolvimento com o setor produtivo. O fato é que os 13 anos de atividade na instituição deram-me a dimensão significativa de sua importância no contesto sócio-cultural e científico do Ceará e deram-me, além de uma experiência humana relevante com alunos, funcionários e professores, a satisfação de lecionar nos cursos de Engenharia, Administração, Contabilidade, Economia, Direito, Geologia, Matemática, Química, Educação Física, Enfermagem e Fisioterapia, e apreender muito do que se faz para o bom andamento desses cursos.
Na UECE estou trabalhando ininterruptamente desde agosto de 1978 e, de lá para cá, participei de todas as lutas docentes em prol da melhoria da instituição, além de apoiar as reivindicações do corpo técnico-administrativo e do corpo discente. Desse envolvimento decorreu num primeiro momento a minha eleição, em novembro de 1981, para o honroso cargo de Presidente da Associação dos Professores da UECE-APUC, patamar a partir do qual pude encetar a mais significativa e produtiva mobilização em defesa de uma universidade pública, gratuita, autônoma e de qualidade, cujos resultados já falei no primeiro parágrafo. Reeleito em 1983 e fazendo o sucessor em 1985, na pessoa do saudoso Hamilton Mota, concretizamos os objetivos colimados no campo da infra-estrutura da UECE, da democratização da instituição, do aparato legal, até então incipiente, e do patamar salarial que culminou com a publicação do Decreto e da Lei que criaram o Piso Salarial do corpo docente da UECE. Conheço a UECE nas suas virtudes e nas suas imperfeições, pois, sem nunca ter me afastado das atividades em sala de aula, vivenciei a experiência administrativo-acadêmica, primeiramente como Coordenador de curso, depois como Chefe do Departamento de Matemática, tudo perfazendo um período de 8 anos no qual também militei no Conselho Departamental do Centro de Ciências e Tecnologia. Na qualidade de representante do corpo docente do Centro de Ciências e Tecnologia pertenci, alternadamente, aos Conselhos Superiores da UECE, Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão – CEPE e Conselho Universitário – CONSU, por um período que totaliza 17 anos. A partir desses envolvimentos tenho, afora outros artigos de interesse geral da sociedade publicados na imprensa local, marcado presença nos jornais locais, enfocando temas relacionados à educação e mais especificamente sobre a vida acadêmica, administrativa, política e classista na UECE. Atualmente, sou professor adjunto e Membro do Conselho Universitário, professor da disciplina Prática de Ensino de Matemática do Curso de Matemática e professor da disciplina Lógica Matemática do Curso de Computação, resido à rua Visconde de Mauá, 1925, apartamento 102, Aldeota, Fortaleza-Ceará, CEP 60125-160, fones 32.24.22.23 e 88.43.42.43.
O mais importante de tudo é ser filho de quem sou e ser casado há 31 anos com uma belíssima, por dentro e por fora, mulher, Tereza Maria Fiuza Alencar Araripe, com quem tive os filhos Rui Benevides Alencar Araripe Filho, médico formado pela UFC, Georgia Fiuza Alencar Araripe, médica formada pela UFC, casada com o tenente pára-quedista do Exército, Leonardo Rubens Carneiro de Almeida, e Bruno Fiuza Alencar Araripe, acadêmico de Direito da UFC.
Rui Benevides Alencar Araripe
Memorial de vida profissional
2008

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